segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Aviso
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Soneto

Eu nasci nas imediações do Parque Dr. Fernando Costa, mais conhecido como Parque da Água Branca.
No domingo em que fiz treze anos de idade fui ao Parque com a minha mãe. Acontecia uma exposição de simpaticíssimos porcos vietnamitas. Enquanto os curiosos disputavam espaço para chegar perto dos mamíferos procurei um banco afastado para ler uma rara edição da "Antologia Poética" do Vinicius de Moraes. Lia o "Soneto de Fidelidade" quando vi ao meu lado, por coincidência, uma autêntica musa inspiradora: Marina. Ela riu quando eu pomposamente disse:
-Meu nome é Agnes de Almeida Campos, muito prazer.
Marina era uma ardorosa fã dos poemas do Vinicius e falamos por mais de uma hora sobre nossos gostos literários. Ao final da nossa conversa não tive dúvidas:
-Quer ser minha namorada?
-Você é muito nova - ela respondeu num gracejo.
-Não é para agora. É para daqui uns anos.
-Quando você tiver dezoito anos ou mais, suponho.
-Daqui a cinco anos, nesse mesmo banco, no terceiro domingo de setembro, às duas horas da tarde, que tal?
-Tudo bem, mas e se estiver chovendo?
-Daqui a cinco anos, nesse mesmo banco, no terceiro domingo de setembro, às duas horas da tarde e com um guarda-chuva.
Ela sorriu. Uma Agnes diferente surgiu naquele dia: autoconfiante, confiando nas pessoas e acreditando no amor. Todos os anos eu ia ao Parque no terceiro domingo de setembro. Não esperava encontrá-la. Na verdade significava para mim uma espécie de renovação do nosso encontro, da nossa deliciosa promessa.
No dia combinado cheguei cedo ao Parque da Água Branca. A tarde estava agradavél. Levei debaixo do braço o Suplemento de Cultura. Comi um cachorro-quente, tomei um refrigerante e esperei. Esperei por horas e ela não apareceu. Uma Agnes diferente saiu de lá: menos autoconfiante, desconfiada e sem crença no amor. Não fui mais ao Parque e joguei no lixo o livro do Vinicius.
Meu medo de ser abandonada ou esquecida me levou a ter relações superficiais com todas as pessoas. Quanto às mulheres era somente sexo e mais nada. Depois da faculdade consegui uma coluna em um jornal do bairro da Barra Funda, onde sempre morei. Alguns meses depois recebi um telefonema:
-Você é a mesma Agnes de Almeida Campos com quem eu marquei um compromisso no terceiro domingo de setembro?
Senti uma certa euforia ao perceber que ela não havia esquecido. Marina marcou um novo encontro no mesmo local:
-Preciso falar com você Agnes. Sinto que lhe devo explicações.
Nosso encontro não teve o mesmo sentido de antes, porém Marina me contou por que não foi ao Parque naquele domingo de setembro. Ela pediu desculpas e concluiu:
-Eu tive que amadurecer para enxergar com clareza o erro que havia cometido. Por favor Agnes, não me queira mal.
Uma Agnes diferente saiu daquele Parque: autoconfiante, confiando nas pessoas e acreditando no amor. Naquele ano comprei outra edição rara do livro do Vinicius.
Continuo morando no mesmo bairro, faço caminhadas no Parque da Água Branca, amo e sou amada, enfim, uma mulher apaixonada pela vida.
Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Quatro Vezes a Morte - Quarta e Última História - Morte em Veneza

Foi minha primeira vez em Veneza, no carnaval. Cheguei cedo no café Quadri para apreciar os ricos ornamentos, embora soubesse pouco acerca do significado de todas as fantasias. Contagiada pela alegria ao meu redor senti a força de um olhar que se fixava no meu.
Por mais de uma hora seguimos uma a outra até que ela decidiu retirar a máscara. Era muito jovem a dona daquele olhar ousado, febril e inebriante.
Caminhamos para longe da multidão e nos apresentamos:
-Meu nome é Ornella e o seu?
-Chamo-me Morte - ela respondeu prontamente.
Não contive o riso por conta do livro de Thomas Mann "Morte em Veneza" e continuei nossa estranha conversa:
-A senhorita Morte teria um outro nome?
-Sim, Sofia - disse com ar compenetrado.
Ela conhecia toda a região ao redor. Não havia melhor companhia: falante, educada, gentil. Numa manhã foi ao hotel onde eu me hospedara:
-Tenho uma casa de campo distante daqui. Gostaria de passar uns dias comigo?
Aceitei o convite e durante o voo me convenci que teria que tomar a iniciativa se quisesse conquistar um beijo sequer daquela moça.
O lugar era isolado. A casa fora reformada o que resultou em uma combinação agradável entre o antigo e o moderno.
Antes do anoitecer ela quis mostrar-me o jardim e colher flores para decorar a mesa de jantar. Eu me ofereci para exibir meus dotes culinários e antes que ela me desse qualquer resposta toquei em seu queixo e tentei beijá-la.
Ela se afastou e ao mesmo tempo pediu desculpas:
-Ornella, quero seu beijo, mas somente depois que você ouvir tudo que eu tenho a dizer.
Recostada no sofá me concentrei na réstia de sombra que o piano deitava sobre o tapete da sala. Não tinha coragem de encará-la quando ela iniciou a narrativa:
-Desde criança meu sonho era conhecer Veneza e participar de seu carnaval. Quando completei dezesseis anos meu pai e meus irmãos me levaram para a célebre cidade. Lá fui pedida em casamento por um homem rico e poderoso. Não obstante a insensatez dessa proposta e a grande diferença de idade entre nós, esse homem seguiu meus passos por dois anos.
Eu nutria um desejo secreto de ser beijada por uma outra mulher e no meu íntimo não via a hora de livra-me desse senhor. Um dia ele me raptou e me encerrou numa cela em uma das suas propriedades. Ele aparecia no local duas vezes ao dia. Jurava que era um apaixonado, um homem que se dedicaria para fazer-me feliz, um abnegado. Em outros momentos parecia um louco, feroz, violento e arrogante. Eu me perguntava qual seria o meu fim diante de tanta tirania. Certa ocasião, tomado de profundo remorso, ele me libertou. Infelizmente era tarde demais para mim. Adoeci por conta do frio, da fome e da sede. O medo completou minha sina e vim a falecer. Senti tanto ódio e desejo de vingança que me tornei a Morte Encarnada. Desde então eu ia para Veneza durante dez dias ao ano com a intenção de matá-lo. Com o passar do tempo, no entanto, novamente recuperei a fé nas pessoas e visitei meu pai e meus irmãos. Deram-me essa casa e providenciaram uma documentação para que eu andasse por onde bem entendesse. Sempre que posso vou visitá-los, mas nesse ano seus olhos me detiveram.
Sofia retomou o fôlego para terminar sua história:
-Acredite Ornella: eu te amo. O amor me devolveu o tempo que me foi roubado. Para tanto terei que abrir mão da minha juventude imperecível e se ficarmos juntas será maravilhoso envelhecer ao seu lado nesse mundo, porém você terá que ser igual a mim.
-E como se dá tal coisa Sofia?
-Um beijo meu e seus cabelos embranquecerão, sentirá um frio que congelará seu sangue e perderá o poder do pensamento. Não terá tempo para sentir medo ou dor. Sua carne se desprenderá de seus ossos e tudo que vive em você queimará e evolará como a fumaça de um cigarro. Após alguns meses um novo corpo será dado a você. Nossa natureza híbrida sobrevive com pequenas quantidades de alimentos e líquidos. Jamais poderá beijar qualquer ser vivo, pois isso equivalerá a um homicídio e você será punida se o fizer. Se aceitar meu convite prometo na sua volta recebê-la aos beijos, que dessa vez serão quentes e apaixonados. O que me diz, Ornella?
-Te amo Sofia. Confio minha vida a você!
Ela me levou pelas mãos para um local preparado para o meu passamento. Seus olhos ternos me disseram palavras de amor e de saudades. E quando me beijou foi exatamente como ela descreveu. Uma ação poderosa atacou o centro do meu ser e me arrancou a vida num átimo.
Despertei em uma tarde iluminada. Estava sozinha e seguindo as instruções de Sofia fiz uma pequena refeição e bebi um suco de fruta. Após um banho reconfortante procurei minhas roupas e fiquei encantada ao ver como ela cuidou de todos os detalhes na minha ausência. Troquei a roupa de cama e observei pela janela do quarto um intrépido filhote de gata que caçava algum inseto entre as flores. Atentei para o fato de que não poderia beijá-lo e senti um calafrio ao recordar que era a Morte Encarnada. Em poucos minutos essa sensação foi substituída pela alegria da presença de Sofia. Ela correu em minha direção para cumprir sua promessa de beijos acalorados.
Naturalmente o desejo cresceu entre nós e nos despimos. Deitei sobre o corpo de Sofia e rocei levemente sentindo seu púbis. Suguei deliciada seus seios pequenos e belos. Quando ela se abriu penetrei com delicadeza meus dedos em sua vagina úmida. Ela mudou de posição e para minha surpresa forçou a ruptura do hímen. Então eu coloquei minha língua macia no seu clitóris sabendo que nada é mais gostoso do que a dor quando permeada pelo prazer. Ela teve um orgasmo tão intenso que sua ejaculação feminina inundou minha boca misturando-se à saliva.
Eu não queria que ela me tomasse sem que realmente estivesse pronta. Eu mesma fui totalmente passiva na minha primeira vez. Sofia, ao contrário, não se intimidou e me tocou pedindo instruções de como eu gostava. Não tive tempo para dar as tais informações, só pedi que ela continuasse para alcançar meu orgasmo. Ficamos assim noite adentro conhecendo nossos corpos e trocando juras de amor. Ela me recordava meus primeiros tempos quando tinha receio de sair do lugar certo ou parar durante o orgasmo da minha amante. Sofia demonstrou uma sensualidade sem censura, de tal modo que percebi nela a amante exigente. Uma mulher que precisa ser seduzida e convencida de que obterá todo o prazer que tem direito.
Antes de adormecer e exausta de tanta felicidade conclui que o amor é vida até mesmo para nós que somos a Morte.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Quatro Vezes a Morte - História nº 3 - Infelicidade

-Essa mulher vai te matar, Felícia! - proclamava a amiga.
-Felícia, larga essa mulher inútil que faz pouco de você! - dizia outra.
-E tem uma amante! - afirmava indignada uma terceira.
As amigas de Felícia tinham razão. Entretanto, Felícia, dotada de uma natureza apaixonada, relutava em separa-se de Cléo. No fundo da alma nutria a falsa esperança de que elas retomariam o namoro de antes e o frescor primaveril dos primeiros beijos.
Felícia remoía os conselhos das amigas enquanto ia ao banco retirar dinheiro para pagar a prestação da casa. A única coisa que tinha na vida. O salário de Cléo era o dobro do seu, mas todos os meses faltava algum valor na hora de acertar as contas. Cléo exagerava em tudo: sapatos, roupas, drogas, bebidas...o sacratíssimo cigarro. Felícia, por sua vez, abria mão dos próprios sonhos e planos.
A família de Cléo desdenhava:
-Cléozinha não pode beber, não pode fumar...mamãe Felícia não deixa!
Uma outra fonte recente de preocupação era o emprego por um fio. Andava esquecida, cometendo muitos erros. Assustada, via perigo em tudo. O coração aos saltos. No início ela pedia calma para si mesma. Retomava paulatinamente as condições cardio-respiratórias naturais. Depois começaram as dores e a dormência nos braços, as noites mal dormidas, o corpo pesado. Tinha a sensação de que era um nada, ninguém. Não se recordava da última vez que foi acariciada ou se sentiu feliz.
Chegou em frente à agência bancária de modo desordenado. De repente a porta ganhou uma distância incalculável e nos olhos enevoados ardeu uma lágrima pressentindo o perigo. A frase de uma música entrou nela de maneira estranha: "Cor...a...ção". Enfartou e morreu na calçada.
O rapaz da van saiu apressado do veículo, uma mulher fez o sinal da cruz, os passantes se reuniram em torno do corpo assombrados diante da morte. O rádio, alheio ao trágico acontecimento, continuava na voz de Alceu Valença: “A gente de ilude dizendo já não há mais coração”.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Quatro Vezes a Morte - História nº 2 - A Roseira

A senhora K. sofria de uma doença terminal. Decidida a morrer em sua casa contratou através de sua neta Valerie uma enfermeira especializada chamada Sayuri. Dessa forma foi feita uma reforma no antigo quarto de casal da paciente e lá, entre outras providências foi colocada uma cama hospitalar voltada para a janela. Dali a senhora K. podia ver a roseira que plantou um dia depois do seu casamento.
Nos raros instantes de lucidez a gentil senhora contava para Sayuri sobre os momentos felizes de sua vida, mas também se lembrava da primeira vez que sentiu algo errado na sua saúde. Ela estava dirigindo, um dos seus maiores prazeres, quando de repente não sabia exatamente onde estava, embora estivesse na rua onde morava. Estacionou o carro e chorou muito. Sabia que nunca mais as coisas seriam como antes e temia esquecer dos tesouros de sua existência e até mesmo do próprio nome.
Para sua sorte, Sayuri era uma mulher atenciosa e extremamente educada. Era fácil sentir empatia por ela e depositar em sua pessoa uma total confiança.
Antes que a doença minasse de uma vez por todas sua resistência, a senhora K. deu instruções detalhadas à sua neta sobre um presente que ela queria deixar para a senhorita Sayuri. Duas semanas depois e de modo avassalador a morte se apresentou e a senhora K. sentiu a mão da enfermeira sobre a sua enquanto via parte da sua vida passar por ela: a mãe e o pai, os estudos, as amizades, o casamento, a roseira, a morte do pai, o nascimento do seu único filho, a morte da mãe, o nascimento da sua adorável neta , os animais de estimação, o falecimento do marido e de novo a roseira. E se uma palavra resumisse tudo essa palavra seria “amor”. Depois veio o esquecimento, a dor do corpo desapareceu e a senhora K. sentiu uma paz acolhedora.
Sayuri foi no enterro da senhora K. mesmo não tendo o hábito de fazê-lo. A verdade é que aquela mulher amorosa fez questão de filtrar todas as coisas da sua vida e ficar com a parte boa até seu último suspiro. Isso impressionou a enfermeira e fez com que ela reavaliasse os rumos de sua vida. Já tinha 35 anos e estava mais do que na hora de aceitar aquele trabalho no hospital. Teria tempo para iniciar uma pesquisa para o seu futuro doutorado. Um dos seus sonhos agora era adotar um bichinho de estimação. Na saída do cemitério a senhorita Sayuri recebeu os agradecimentos de Valerie e ganhou o seu presente:
-Uma lembrança minha e outra da minha avó. Espero que goste – afirmou Valerie.
Sayuri chegou em casa exausta. Tomou um banho e foi dormir. Acordou tarde da noite, fez uma pequena refeição e só então lembrou do presente. Abriu a caixa colorida com uma curiosidade quase infantil e sorriu ao ver do que se tratava. Era uma caneca com a figura de duas meninas de mãos dadas. Dentro da caneca o cartão pessoal de Valerie e um pacotinho com sementes de rosa.
Antes de adormecer novamente Sayuri pensou na senhora K. com um profundo sentimento de gratidão. Depois pensou em Valerie e o coração disparou ansioso diante da possibilidade de um novo amor.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Quatro Vezes A Morte - História nº 1 - Urso Gay

Um amigo em comum nos apresentou. Ele era jovem, bonito, um autêntico urso gay. Pena que ele não pensava nada de bom sobre si mesmo. Tanto é que o sujeito vivia amuado num canto do bar, bebendo muito e quase sempre só. Um dia me explicou a razão dos seus males.
Foi bailarino e nessa época conheceu o grande amor da sua vida. Juntos começaram a viver uma história única, romântica e sensualíssima.
Parecia uma história fadada a não ter fim, até que o rapaz foi estudar em Londres.
Meu amigo urso não assimilou bem a separação, caiu em depressão e engordou. O namorado,não sabendo nada sobre isso, mandava mensagens afirmando estar com muitas saudades daquele corpinho sarado e gostoso.
-Ele não pode me ver assim – dizia - o pior é que ele anda ameaçando voltar ao Brasil de surpresa, imagine, ele que não ouse, eu desapareço, caio no mundo...
-Que é isso, bee - eu discordava - conta pra ele toda a verdade, desencana.
Ficava chateada de vê-lo daquele jeito e insistia:
-Sabe, o que você precisa é entrar na comunidade ursina, tem uns projetos bárbaros, muitos admiradores de gays como você: peludo, barbudo e sexy. Eles vão adorar você, bee.
-Mas eu não sou um urso, estou mais para baleia -lamentava.
Volta e meia ele bebia muito e chorava olhando suas fotografias dos tempos do balé. Cansadas daquela lamúria as pessoas foram se afastando e isso só piorava a situação.
Certa noite me fez um sinal.
-Vou retirar o apêndice amanhã -contou- estou apavorado...
-Vai dar tudo certo – afirmei com convicção -conheço dezenas de pessoas que fizeram essa operação.
No dia seguinte um avião vindo de Londres pousou no Brasil às 9h58. Nele estava o namoradinho do meu amigo urso.
Pontualmente às 10h00 meu amigo urso morreu na sala de cirurgia.














