Fernanda,aos quinze anos de idade, sentiu uma leve dor na cicatriz próxima ao olho direito. Ela ganhou essa marca caindo da bicicleta. Achava que choveria.
Estava preocupada,pois tinha a festa de aniversário de dezenove anos de Lídia,aluna na mesma faculdade do seu irmão Armandinho.
Decidiu-se por uma camisa outono-inverno de mangas compridas.
A casa e a festa estavam por conta da aniversariante e os convidados. Talvez por isso muitos se excederam na bebida,menos Fernanda,cuja cicatriz denunciou a chuva,que veio forte.
Lídia também tinha uma marca no braço,adquirida em um acidente de carro quando ainda era criança.
Olhou para Fernanda,quieta no canto da sala e a chamou:
-Hei,Little Chicken,pode me acompanhar no banheiro lá em cima?
Fernanda não gostou do apelido,mas não queria parecer antipática,além do mais seu irmão garantiu a ela que Lídia era lésbica. Percebeu aí uma boa oportunidade de ficar a sós com a outra.
Entraram numa suíte ampla,bem decorada e razoavelmente iluminada.
Lídia se contentou em observar a franguinha,pensava no quanto Fernanda era bonita e atraente.
Na volta ao alcançarem o corredor, Lídia tocou na cintura de Fernanda e a tomou para si beijando sua boca. Adorou a sensação de ser correspondida e sussurrou no ouvido da outra:
-Little Chicken,gosto de mulheres treinadas. Quando você aprender a transar,por favor,me procure.
Deixou Fernanda com ar de perplexidade e desejos inauditos.
Fernanda aprendeu a transar,entretanto não procurou Lídia.
Cerca de quatro anos após esse estranho encontro,Fernanda entrou numa cafeteria e se deparou com Lídia conversando animadamente com um jovem. Era bem evidente a amizade entre os dois. Ela tocava nos ombros do rapaz e trocavam gracejos.
Na despedida,ele deu um pequeno selinho em Lídia deixando-a sozinha com seu café irlandês. Nesse momento,ao atentar ao seu redor,viu Fernanda e fez um sinal pedindo aproximação.
Achou melhor esquecer de uma vez por todas o apelido de Little Chicken,pois a outra estava uma mulher linda,mais alta que ela e continuava muito atraente.
Conversaram o suficiente para terem vontade de reverem-se. Lídia trabalhava com produção teatral e seu amigo era um ator promissor em início de carreira.
Fernanda estava na faculdade. Saiu da cafeteria contente e cheia de novas expectativas,afinal desejava Lídia há anos.
Lídia se encheu de um entusiamo quase infantil. Não contava com a sorte em rever sua garota preferida.
E assim as duas foram estreitando os laços até que Fernanda notou em Lídia um certo distanciamento,algo discreto,mas altamente perceptível para uma pessoa sensível como ela. Decepcionou-se ao acreditar que Lídia,por alguma razão que ela desconhecia,nunca seria dela.
Lídia comentou com uma amiga os motivos que a afastavam mais e mais da outra:
-Anna, detesto essa coisa canina e subserviente na Fernanda,mal nos reencontramos e ela já me põe num pedestal. Quero uma namorada não uma adoradora!
Anna conhecia Lídia o bastante para saber que ela sempre exagerava um tanto:
-Coitada da moça,Lídia,está apaixonada e abalada. Você é muito presencial,dê uma chance para ela se adaptar.
Acontece que Lídia repudiava sinais de fraqueza e sabia determinar o que mais a incomodava:
-Ela não sustenta o olhar,se intimida. Tenho me perguntado se tem uma tigresa escondida ali,somente vejo a Little Chicken de antes.
Anna riu da observação.
Fernanda levou meses amargando a indiferença de Lídia e sem atinar o porquê, se deixou abater pelo desânimo e se afastou. Quando ganhou dois convites para a inauguração de uma nova danceteria gls resolveu,pela última vez, tentar uma reaproximação de Lídia.
Lídia ficou feliz pela lembrança e queria muito conhecer o local. Sentiu um rápido enlevo ao avistar Fernanda. Tinha por ela uma profunda atração sexual e ao mesmo tempo lamentava aquela falta de reação,aquela inércia.
Nunca saberemos se Fernanda agia por excesso de educação ou as verdadeiras raízes de sua timidez. É certo que na vida,muita vezes,um fator inesperado pode transformar uma cordeira em uma loba. E com Fernanda não era diferente.
Estavam conversando no bar quando ela notou o olhar de Lídia voltado para outra mulher.
Reparou que sua pretensa rival tinha provavelmente a mesma idade que ela. Usava uma vistosa camisa branca plissada que lhe conferia a aparência de uma poetisa ou não menos que isso. Havia algo mais,a jovem tinha uma atitude desafiadora,fixava o olhar guloso e devorador em Lídia e estava conseguindo envolvê-la.
Lídia pediu licença discretamente e fez menção de conhecer a jovem sedutora. Mal deu dois passos e Fernanda a deteve segurando-a pelo braço. Tocava na antiga cicatriz e Lídia sentiu uma pontada de dor,a mesma que antecede as tempestades.
Num gesto brusco e bem calculado tentou desvencilhar-se da outra,mas Fernanda persistiu no intento de impor obstáculos. Uma centelha em seus olhos dizia “só se for por cima do meu cadáver”.
Lídia estremeceu. A princípio quis reagir com palavras agressivas,porém aquele olhar felino da outra a hipnotizou. Sorriu e tocou com os dedos na cicatriz do rosto da sua tigresa. Beijaram-se apaixonadamente.
Dirigiram-se ao apartamento de Lídia,onde trocaram carícias urgentes. Em meio aos beijos e juras de amor,ela continuou constatando o olhar felino da sua adorada. Não se lembrava de ter sentido tanto prazer em estar com alguém e tinha medo que aquela Fernanda desaparecesse ao ter seus desejos saciados.
Após o orgasmo da amante,Lídia reportou-se mais uma vez àqueles olhos azuis e profundos. O olhar de Fernanda anunciava o começo de uma noite sem fim,seguida de fortes chuvas.
Lídia sorriu,beijou os olhos e a boca da outra. Fernanda mordeu seu queixo e devolveu o sorriso. Aos poucos,as duas voltaram a respirar normalmente. Fernanda adormeceu primeiro. Lídia velou seu sono por longos minutos. Não se continha de felicidade. Finalmente havia encontrado a tigresa dos seus sonhos mais perfeitos.
"Esse texto foi inicialmente publicado no site Parada Lésbica"





















































